Disseram-me que devia escrever para desabafar e pôr as ideias em ordem; disseram-me que isto me iria ajudar a perceber a realidade, a ver o quão estou errada e a reconhecer que preciso de ajuda. Ajuda de um especialista.
A verdade é que, honestamente, não me parece que alguma dessas coisas vá acontecer, muito menos tendo em conta que esperam que transcreva as minhas memórias para um caderno, relatando tudo o que se passou.
É curioso como as coisas mudam: reconheço que se há uns tempos me tivessem falado de alguém na minha actual situação, teria algumas dúvidas sobre a maneira correcta de encarar o problema. Sim, eu SEI que tenho um problema… Apenas não é o problema que todos julgam que tenho.
Basicamente, isto é o que acontece quando quem nos deveria apoiar nos bons e maus momentos deixa de pensar na maneira como nos sentimos e no que nos fará verdadeiramente felizes, mentalizando que só estaremos bem da forma que eles querem que sejamos felizes.
Felicidade. Que vaga me parece agora essa palavra, tão longe da realidade, longe da única coisa que, neste momento, lhe conferiria sentido. Seria tudo muito mais simples se ninguém se importasse comigo – já não haveria uma família angustiada a tomar decisões erradas por mim, e possivelmente a minha sanidade mental não estaria a ser posta em causa. Aliás, independentemente do que possam dizer, nunca me senti tão bem como há umas semanas, mas agora questiono-me sobre o tempo que esta situação durará e quais as reais consequências que isso sim, terá para a minha saúde física e psicológica.
O que quero dizer é que se eu quiser passar o resto da minha vida a viver numa barraca debaixo da ponte, a minha família e os meus amigos só têm de me apoiar e não levar-me a um psicólogo que me tente convencer de que tenho um problema e que, se escrever tudo o que me levou a querer viver debaixo da ponte, em vez de habitar a mansão da família Castro de Assis, tudo se resolverá e aperceber-me-ei do grande disparate que havia sido querer viver debaixo da ponte em primeiro lugar (para não falar na barraca com condições precárias).
Bem, isto foi só um exemplo: eu não quero viver numa barraca debaixo da ponte (não que haja algum mal em querer), mas o que se está a passar comigo é, de uma forma ou de outra, idêntico.
De qualquer forma, pelo que percebi é suposto este caderno ser uma espécie de diário com a diferença de que, enquanto escrevo, tenho a consciência de que alguém o lerá e, consequentemente, nunca cairei no erro de referir por quem sinto uma paixoneta, como fiz no terceiro ano da escola primária para depois vir a descobrir que o meu irmão lia o meu diário todas as noites, depois de eu me deitar. Desde então nunca mais mantive um diário…
No entanto, pondo de parte experiências traumatizantes que levaram a que aquele que então pensava ser o meu futuro marido fugisse de mim como se cheirasse pior que um monte de adubo orgânico, aqui estou eu, onze anos mais tarde, pronta para dar a conhecer todos os “podres” de um passado próximo da minha vida.
Afinal, quem sabe não será assim tão mau… Quem não queria que fugisse de mim já se encontra longe o suficiente. Oxalá resultasse com quem insiste em sufocar-me. Agora que penso nisso, neste momento cheirar a fertilizante não seria uma possibilidade assim tão desagradável.
* * *
Quando os meus pais metem uma ideia na cabeça ninguém os dissuade.
Saturday, September 25, 2010
Maria Castro de Assis - Capítulo I (parte I)
I
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